CubaRaúl António Capote

O regresso do macartismo: a farsa do relatório que faz de Cuba o inimigo perfeito

O relatório do Departamento de Estado contra Cuba carece de provas, assentando numa narrativa ideológica que recicla clichés da Guerra Fria

O relatório do Departamento de Estado publicado a 20 de julho de 2026 sob o título «Cuba: The Capital of 21st Century Subversion», acessível através do domínio oficial state.gov, acusa Cuba de fomentar o «extremismo de esquerda» nos Estados Unidos e de ter criado uma rede de espionagem e influência para «minar os interesses norte-americanos».

Para começar, o texto em questão carece de fundamentação probatória, baseia-se numa narrativa ideológica que recicla clichés da Guerra Fria e omite sistematicamente o contexto de agressão assimétrica que Washington tem mantido contra a ilha há mais de seis décadas

O documento articula-se em torno de uma tese conspirativa clássica: existe um agente estatal estrangeiro – Cuba – que instrumentaliza movimentos sociais, académicos e políticos norte-americanos, com o objectivo de desestabilizar a ordem interna e alterar a política externa dos EUA.

Para tal, segundo o documento, Havana teria criado uma «rede de espionagem e influência» que se sobrepõe a organizações legítimas da esquerda norte-americana; no entanto, após uma leitura atenta, verifica-se que o texto não apresenta um único elemento de prova verificável: não cita processos judiciais em curso, não identifica agentes cubanos pelo nome e apelido, não apresenta intercepções de comunicações, nem documentos de serviços secretos desclassificados que permitam contrastar as suas afirmações.

Esta ausência de provas é especialmente notória porque o Direito e a prática diplomática exigem que acusações desta gravidade — que implicam a violação da soberania e a ingerência nos assuntos internos — sejam apoiadas por um nível de prova sólido.

O que o relatório apresenta, pelo contrário, é um conjunto de inferências e uma rectórica de «culpa por associação»: o simples facto de um grupo partilhar posições críticas em relação ao bloqueio ou estabelecer intercâmbios académicos com instituições cubanas torna-se um indício de subordinação a uma suposta estratégia de serviços secretos.

Não é a primeira vez que o Departamento de Estado recorre a este padrão; os relatórios anuais sobre terrorismo e direitos humanos têm sido alvo de críticas por parte de relatores da ONU e de organizações como a Amnistia Internacional, por utilizarem critérios de prova pouco rigorosos quando se trata de países que não se alinham com a política externa dos Estados Unidos.

Neste caso específico, a ausência de provas transforma o relatório num exercício de propaganda que apela mais ao medo do que à análise racional.

Um dos aspectos mais reveladores do texto é o seu quadro hermenêutico: toda a oposição à política externa dos EUA em relação a Cuba é apresentada como ilegítima por si só, e qualquer afinidade ideológica com o projecto socialista cubano é automaticamente classificada como parte de uma «operação de inteligência hostil». Esta operação discursiva tem duas consequências graves.

Em primeiro lugar, retira a autonomia aos actores políticos norte-americanos, ao partir do princípio de que as organizações afro-americanas, os sindicatos, os colectivos antirracistas, os movimentos pela justiça climática ou de solidariedade não podem ter chegado por si próprios a um pensamento crítico; o relatório infantiliza a sociedade civil e ignora décadas de história do internacionalismo solidário.

A oposição ao bloqueio não é uma invenção de Havana: tem sido defendida por laureados com o Prémio Nobel, líderes religiosos, incluindo a Conferência Episcopal dos EUA, por inúmeras resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas e por editoriais de meios de comunicação como o *The New York Times*, que, em 2022, classificou a política de bloqueio como «um fracasso obsoleto».

Em segundo lugar, verificamos que o relatório contribui para um clima de criminalização do protesto e da dissidência que tem vindo a intensificar-se nos EUA. A ideia de que as críticas internas são orquestradas por um inimigo externo cumpre uma função política específica: desviar a atenção dos próprios fracassos e estigmatizar aqueles que exigem mudanças.

Historicamente, esta táctica tem sido utilizada para justificar a vigilância e a repressão de movimentos legítimos, desde o macartismo até à criminalização do movimento Black Lives Matter, através de narrativas infundadas sobre «infiltração estrangeira».

A OMISSÃO ESTRUTURAL: A HISTÓRIA DO CONFLITO ASSIMÉTRICO E DA AGRESSÃO DOS ESTADOS UNIDOS

Talvez o maior defeito do relatório seja aquilo que omite deliberadamente. O leitor que não conheça a história bilateral não encontrará nas suas páginas qualquer menção aos seguintes factos amplamente documentados:

O bloqueio económico, comercial e financeiro, imposto formalmente em 1962 e reforçado por leis como a Torricelli (1992) e a Helms-Burton (1996), constitui a pedra angular de uma política de cerco que custou à economia cubana milhares de milhões de dólares.

As agressões armadas e o terrorismo de Estado, os planos de atentados contra líderes cubanos documentados pela Comissão Church do Senado, a tolerância para com grupos violentos de origem cubano-americana que atuam a partir do território dos EUA.

A ingerência sistemática nos assuntos internos de Cuba, através do financiamento federal de programas de «promoção da democracia» que, sob o pretexto da ajuda, têm sido utilizados para preparar operações de desestabilização.

Qualquer análise séria da suposta «rede de influência» cubana deveria partir de uma premissa realista: um Estado pequeno, bloqueado e sujeito a uma campanha permanente de hostilização procurará naturalmente alianças na sociedade civil do país hostil para quebrar o isolamento, exatamente como faria qualquer outro Estado em condições semelhantes.

Essa procura de espaços de influência política e diplomática — através de contactos com deputados, viagens de solidariedade, intercâmbios académicos ou brigadas médicas — insere-se no exercício legítimo da diplomacia pública, e não na espionagem.

Confundir ambas as esferas é uma deturpação que só pode ser sustentada se se omitir completamente o contexto de cerco que a origina.

A DEGRADAÇÃO DO DISCURSO POLÍTICO E O RENASCIMENTO DE UM MACARTISMO DE NOVO TIPO

O relatório em questão não é um caso isolado, mas sim um sintoma de uma deriva mais ampla na política norte-americana. Nos últimos anos, consolidou-se uma prática governamental que consiste em identificar um inimigo externo a quem atribuir todas as tensões internas.

Este documento constrói um relato em que Cuba se torna a «capital da subversão do século XXI», uma hipérbole que contrasta com a realidade de uma ilha que mal consegue superar as consequências do recrudescimento do bloqueio.

A assimetria de poder é tão esmagadora que a imagem de uma Cuba a controlar remotamente as mentes e as ações dos ativistas norte-americanos só pode ser entendida como uma projecção paranóica ou como uma cortina de fumo para justificar a manutenção de uma política falhada.

Numa perspectiva de análise política, o que o relatório degrada é o próprio padrão da argumentação em matéria de relações externas, substituindo a investigação baseada em factos pela construção de «narrativas de ameaça», um recurso próprio da propaganda.

Recorre a uma retórica grandiloquente, como «minar os interesses norte-americanos» ou «capital da subversão», que faz lembrar a máquina discursiva que antecedeu a guerra do Iraque, quando foram apresentadas certezas sobre armas de destruição maciça que nunca existiram.

Este relatório do Departamento de Estado deve ser interpretado, acima de tudo, como um acto de discurso performativo: não pretende descrever a realidade nem informar o Congresso com honestidade, mas sim legitimar uma política hostil que tem sido rejeitada pela comunidade internacional e criar um clima de desconfiança em relação à dissidência interna.

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Raúl Antonio Capote | (Havana, 1961) é um escritor, historiador, professor, investigador e jornalista cubano.  Jornalista, chefe de redacção do Granma Internacional

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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