
A Revolução que não começou em 1959: A longa luta do povo cubano contra o império
A Revolução Cubana não começou em 1959. Começou nas selvas onde os mambises brandiam machetes contra o império espanhol, nos versos de José Martí que sonhavam com uma pátria livre, e no sangue de gerações que recusaram o jugo estrangeiro.
Quando Fidel Castro e os seus barbudos entraram em Havana, a 1 de janeiro de 1959, não estavam a iniciar uma luta. Estavam a cumprir uma promessa que vinha de quase um século de resistência.
E, desde então, o império — primeiro espanhol, depois yankee — tem tentado apagar essa promessa. Mas Cuba continua de pé.
Este artigo é uma viagem pela história dessa resistência: dos mambises ao bloqueio, de Martí a Fidel, da dignidade à vitória. Porque a história de Cuba não é apenas a história de uma ilha — é a história da luta de todos os povos que se recusam a ser escravos.
Quando se fala da Revolução Cubana, há quem a reduza a um evento de 1959, como se Fidel Castro e os seus barbudos tivessem surgido do nada. Mas a verdade, é que a Revolução Cubana é um processo que começou muito antes — nas selvas onde os mambises lutaram pela independência, nas palavras de José Martí, e no sangue derramado por gerações de cubanos que recusaram a escravidão e o domínio estrangeiro.
A história de Cuba é a história de uma resistência ininterrupta contra o império. E é essa história que o imperialismo tenta apagar.
Os Mambises: A primeira trincheira
Em 10 de outubro de 1868, Carlos Manuel de Céspedes, um proprietário de terras em La Demajagua, libertou os seus escravos e declarou a independência de Cuba. Começava ali a Guerra dos Dez Anos, a primeira grande tentativa de libertar a ilha do jugo espanhol. Durante dez anos, os mambises — guerrilheiros cubanos, muitos deles negros escravizados e camponeses pobres — travaram uma guerra desigual contra o exército espanhol.
Os mambises não eram soldados profissionais. Eram homens e mulheres que pegavam em armas porque sabiam que a liberdade não se implora — conquista-se. Lutaram com machetes, com fome, com a certeza de que a pátria valia mais do que a vida.
A Guerra dos Dez Anos terminou em 1878 com a derrota militar dos independentistas. Mas a semente estava plantada.
José Martí: O Apóstolo da independência
Foi José Martí, o poeta e revolucionário, que pegou nessa semente e a fez germinar. Martí passou anos no exílio, a organizar a guerra que finalmente libertaria Cuba. Fundou o Partido Revolucionário Cubano, arrecadou fundos e preparou o regresso à ilha.
A 24 de fevereiro de 1895, o Grito de Baire deu início à Guerra de Independência, a última das três guerras pela libertação de Cuba. Martí desembarcou em Cuba a 11 de abril de 1895, determinado a liderar a luta.
Morreu em combate no mesmo ano, a 19 de maio, em Dos Ríos. Tornou-se o mártir da independência cubana, o homem que deu a vida para que Cuba fosse livre.
Mas a liberdade que Martí sonhava não chegou em 1898. Quando a guerra estava quase ganha, os Estados Unidos intervieram, destruíram o que restava do exército espanhol e ocuparam a ilha. Cuba tornou-se independente de Espanha — mas passou a ser um protectorado dos EUA. O imperialismo tinha trocado de cara, mas continuava no poder.
1959: A Revolução que mudou tudo
Durante mais de meio século, Cuba foi um satélite dos EUA. Governos corruptos, economia dominada por empresas americanas, e um povo que continuava a ser explorado. Até que, em 1953, um jovem advogado chamado Fidel Castro liderou um ataque ao quartel de Moncada. Foi um fracasso militar, mas um sucesso político: o discurso “A História me Absolverá” tornou-se o manifesto da Revolução.
Em 1956, Fidel, o seu irmão Raúl, Camilo Cienfuegos e Che Guevara e mais 78 homens desembarcaram em Cuba no iate Granma. Foram recebidos a tiro. Apenas 12 sobreviveram. Mas esses 12 refugiaram-se na Sierra Maestra, nas montanhas do leste cubano, e iniciaram uma guerra de guerrilha que duraria dois anos.
A 1 de janeiro de 1959, o ditador Fulgencio Batista fugiu do país. A Revolução Cubana tinha triunfado.
O Bloqueio: A guerra económica contra um povo
Os EUA não perdoaram Cuba por ter ousado ser livre.
Em outubro de 1960, o governo de Eisenhower impôs um bloqueio às exportações de açúcar cubano. Em fevereiro de 1962, o presidente John F. Kennedy formalizou o bloqueio económico, comercial e financeiro total contra a ilha. O objectivo, como revelou um memorando do subsecretário de Estado Lester Mallory em 1960, era claro: “provocar fome, desesperação e derrubar o governo”.
Desde então, o bloqueio dos EUA a Cuba é o mais longo da história da humanidade. Os danos acumulados, a preços correntes, ultrapassam os 159 mil milhões de dólares. A cada dia, o bloqueio custa a Cuba 13 milhões de dólares.
O bloqueio não é uma sanção. É um acto de guerra económica em tempo de paz. É uma tentativa de asfixiar um povo, de negar-lhe o acesso a medicamentos, alimentos, combustível, tecnologia. É um castigo colectivo, um crime de lesa humanidade.
E, no entanto, Cuba resiste.
A resistência: Da dignidade à vitória
Cuba não se rendeu. Nunca se rendeu.
Apesar de mais de seis décadas de bloqueio, apesar das centenas de tentativas de assassinato contra Fidel Castro, apesar da invasão da Baía dos Porcos, apesar de tudo, Cuba continua de pé.
A cada ano, a Assembleia Geral da ONU vota contra o bloqueio. Em 2025, 165 países exigiram o seu levantamento. Os EUA ignoram, ano após ano.
Cuba resiste com a única arma que tem: a dignidade. Com médicos que partilham o seu saber com o mundo. Com cientistas que criam vacinas apesar do bloqueio. Com um povo que, mesmo na escuridão dos apagões, acende uma vela e continua a lutar.
Conclusão: A luta continua
A luta do povo cubano não começou em 1959. Começou com os mambises nas selvas do século XIX, com Martí nos seus poemas, com Fidel nas montanhas da Sierra Maestra. E continua hoje, em cada cubano que acorda e enfrenta mais um dia de bloqueio, mais um apagão, mais uma mentira da imprensa.
O império tenta apagar esta história. Tenta fazer crer que Cuba é um “fracasso”, que a Revolução é uma “ditadura”, que o bloqueio é uma “sanção legítima”. Mas a história, camarada, não se apaga com mentiras.
A história de Cuba é a história de um povo que nunca se rendeu. E enquanto houver um cubano de pé, a Revolução continuará.
Homenagem ao povo cubano: A chama que não se apaga
E agora, paro por aqui. Porque este artigo não estaria completo sem uma palavra para o verdadeiro protagonista desta história: o povo cubano.
Aquele que, durante mais de seis décadas, enfrentou o bloqueio mais longo e cruel da história. Aquele que, mesmo na escassez, partilha o pouco que tem. Aquele que, nos apagões, acende uma vela e encontra tempo para um abraço, uma conversa, um sorriso. Aquele que, em cada fila, em cada espera, em cada dificuldade, inventa formas de resistir.
O povo cubano é a prova viva de que a dignidade não se negocia. É aquele que, mesmo quando o império aperta o cerco, encontra forças para criar, para cuidar, para lutar. São os médicos que salvam vidas com recursos mínimos. Os professores que ensinam à luz de lanternas. Os cientistas que desenvolvem vacinas apesar do bloqueio. Os trabalhadores que, todos os dias, se levantam para construir o futuro.
É esse povo que, desde os mambises até hoje, nunca se rendeu. Que pegou em machetes contra o império espanhol, que seguiu Martí nos seus sonhos, que lutou com Fidel nas montanhas da Sierra Maestra. E que continua, hoje, a resistir — com a mesma teimosia, o mesmo sorriso, a mesma certeza de que a vitória é possível.
Por isso, desta margem do Atlântico, com a admiração de quem conhece a sua história, a sua luta e a sua força, deixo aqui a minha homenagem:
Povo cubano, a tua resistência é a minha, a nossa inspiração. O teu exemplo é a nossa bússola. E, enquanto houver um cubano de pé, a chama da Revolução não se apagará.
Pátria ou Morte, Venceremos!
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Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.



