
Bolívia: Ministério Público concretiza o cerco político e ordena a detenção de Evo Morales
É incluído como arguido pelo bloqueio de 53 dias, entre maio e junho, altura em que o país foi palco de uma revolta popular contra o neoliberalismo e a tentativa de destruir o Estado plurinacional.
O Ministério Público do departamento boliviano de Santa Cruz emitiu esta quarta-feira um mandado de detenção contra o ex-presidente Evo Morales (2006-2019), para que preste depoimento sobre os bloqueios que ocorreram durante os meses de maio e junho, quando o país foi palco de uma onda de protestos sociais contra as medidas neoliberais do Governo de Rodrigo Paz.
A ordem judicial foi emitida no âmbito do processo instaurado pelo Comité pró-Santa Cruz (organização cívica de orientação conservadora) contra Evo Morales e outros dirigentes acusados de promover os bloqueios de estradas, organizados no âmbito da rebelião popular de quase dois meses contra o neoliberalismo, com o objectivo de forçar a demissão de Paz e pressionar o Executivo de direita a dialogar, face à sua relutância em ouvir as reivindicações populares e governar no interesse das maiorias excluídas e não das elites tradicionais. Os bloqueios resultaram em repercussões na economia. Para além de vários manifestantes, foram registadas mortes de pessoas que não puderam receber cuidados médicos atempados.
Morales é acusado de ser o responsável por essas mobilizações, juntamente com vários líderes sindicais que se encontram detidos. Estão a ser investigados por presuntos crimes de revoltas armadas contra a segurança e a soberania do Estado, terrorismo, atentado contra a segurança dos meios de transporte, associação ilícita, instigação pública à prática de crimes e atentado contra a segurança dos serviços públicos.
Também foi acusado Juan Carlos Huarachi, ex-secretário executivo da Central Obrera Boliviana (COB), organização sindical que desempenhou um papel importante nas mobilizações.
A não criminalização do protesto social e a não detenção dos seus líderes estiveram entre as principais reivindicações apresentadas ao presidente pelos representantes dos sectores populares que lideraram as mobilizações.
Durante os protestos, os sectores populares exigiram melhorias económicas, uma solução para a escassez de combustíveis, a prestação de contas e o julgamento dos responsáveis pelo escândalo da «gasolina de má qualidade» e a revogação da Lei n.º 1720, que promovia o latifúndio.
Estas mobilizações deram continuidade às de dezembro de 2025, quando milhares de bolivianos exigiram a Paz a revogação do decreto 5503, através do qual foram eliminados os subsídios aos combustíveis, com o consequente impacto nas economias populares.
Trata-se de um novo mandado de detenção contra Morales. Há alguns anos, no departamento de Tarija , foi emitido outro mandado contra ele por um caso de tráfico de pessoas que, segundo a sua defesa, já prescreveu. Morales rejeitou veementemente qualquer acusação e afirma que se trata de perseguição política.
📌 El expresidente boliviano, Evo Morales denunció al presidente Rodrigo Paz como "sometido a Estados Unidos" y afirmó que las manifestaciones en Bolivia son una respuesta popular al modelo económico de Paz, que atentó contra la economía familiar, la democracia y los recursos… pic.twitter.com/c4aOS76Kip
— teleSUR TV (@teleSURtv) May 29, 2026
Evo encontra-se no Trópico de Cochabamba, sob a protecção de milhares de apoiantes das Seis Federações do Trópico. Anteriormente, em sua defesa, explicou que as Federações do Trópico não foram as responsáveis pelos bloqueios de estradas, entre outras razões.
Para os líderes populares de base, os mandados de detenção contra Morales e outros dirigentes populares constituem uma cortina de fumo e confirmam a intenção do Governo de Paz de não reconhecer a sua responsabilidade na grave crise que a nação andina enfrenta.
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