Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

Khamenei Vive: O Martírio que o Ocidente nunca Compreenderá

Na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, os EUA e Israel lançaram a “Operação Fúria Épica” sobre o Irão. Os mísseis de precisão não se limitaram a atingir infraestructuras militares. Foram programados para um alvo específico: o líder supremo Aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, que tombou como mártir juntamente com altos comandantes da Revolução.

Khamenei: Muito mais que um líder nacional

É preciso entender quem Khamenei representava para além das fronteiras do Irão. Como noticiou o The New Arab, a sua influência estendia-se muito além da estrutura estatal iraniana. Como líder supremo sob a doutrina do Velayat-e Faqih (Tutela do Jurista), combinava autoridade religiosa com controlo político absoluto .

Politicamente, presidiu e moldou o que ficou conhecido como o “Eixo da Resistência” – uma rede de movimentos e grupos armados alinhados com o Irão, incluindo o Hezbollah no Líbano, as milícias xiitas no Iraque, o regime sírio (antes da sua queda) e os houthis no Iémen .

Para os apoiantes desse eixo, Khamenei era mais do que um líder nacional. Era um símbolo de resistência contra os EUA e Israel . A sua morte, portanto, ressoou particularmente em comunidades onde a lealdade política a Teerão está entrelaçada com alinhamento religioso e ideológico .

O Martírio: Conceito que o Ocidente não domina

No Islão xiita, o martírio (shahadat) não é uma derrota – é o testemunho supremo da fé. O Aiatolá Nasser Makarem Shirazi, uma das mais influentes fontes de imitação (marja’) do mundo xiita, emitiu uma fátua a convocar para a jihad contra os EUA e Israel . Isto não é “extremismo”. É a resposta natural de uma comunidade que vê o seu líder ser assassinado por potências estrangeiras.

A própria história de Khamenei confirma esta dimensão. Durante quase quatro décadas, liderou o Irão num período de sanções implacáveis, ameaças constantes e guerras por procuração. Poucas semanas antes do seu martírio, afirmou: “O problema da América connosco é o seu desejo de dominar o Irão, mas a nação iraniana e a República Islâmica estão firmemente no caminho desse objectivo.”

A hipocrisia Ocidental: O Feminismo Made in USAID

Dizem que o Irão oprime as mulheres. Que o hijab é um símbolo de subjugação. Que as iranianas precisam de ser “libertadas”.

Ora vejamos: nos discursos de dezembro de 2025, o próprio Khamenei abordou esta questão de forma incisiva. Numa série de publicações nas redes sociais, acusou o Ocidente de tratar as mulheres como “objectos de prazer” e de as reduzir a “escravas” sob o capitalismo . Disse ele:

“Na cultura capitalista ocidental, as mulheres são vistas como objectos de prazer. Os gangs criminosos que recentemente criaram alvoroço na América são uma indicação clara disso.” 

E ainda:

“Crianças sem pai, relações familiares em erosão, destruição da estrutura familiar, gangs a predar raparigas jovens e promiscuidade sexual crescente – tudo em nome da liberdade! Tal corrupção reflecte o estatuto das famílias no Ocidente e eles chamam-lhe ‘liberdade!'” 

Hipocrisia, sim, é a do Ocidente que se arroga o direito de dar lições enquanto financia ONGs que produzem relatórios encomendados – os mesmos relatórios da USAID e da NED que a ONU usa para condenar o Irão, enquanto ignora as mais de 160 votações anuais contra o bloqueio a Cuba.

Ainda hoje em Portugal se utilizam o véu e roupas pretas. Tradição, cultura, fé. E quem sou eu, de fora, para dizer como vestir?

A Resiliência de um Sistema

Ao contrário do Iraque, da Líbia, do Afeganistão, o Irão não é um regime de cartão. Como sublinha a análise da Al Jazeera citada pela Evrensel, “o regime clerical no Irão, ao contrário dos regimes do Iraque, Afeganistão ou Líbia, tem instituições profundas que lhe permitem resistir a abalos significativos” .

A Guarda Revolucionária controla cerca de 60% da economia. O sistema foi desenhado para sobreviver a choques. Khamenei preparou a sucessão: o conselho interino, com o Aiatolá Alireza Arafi, garante a continuidade .

As reacçoes no Mundo Islâmico

O que o Ocidente não entende é que a morte de Khamenei transcende divisões sectárias. Como escreveu Halimah Nuhu Sanda no Daily Trust, da Nigéria:

“As divisões entre sunitas e xiitas há muito que moldam a região. Agora, estão a ser recalibradas. A morte de Khamenei é percebida não como a queda de um líder xiita, mas como a morte de um líder muçulmano por uma potência estrangeira. Os sunitas que não partilham da sua teologia sentem o peso deste acto. É um lembrete de que a resistência, a consistência e a liderança baseada em princípios granjeiam respeito para além das linhas doutrinárias. O mundo muçulmano está, em parte, unido por este momento.” 

O Grande Aiatolá Ali Sistani, a mais alta autoridade xiita do Iraque, emitiu uma declaração a lamentar a morte de Khamenei e a reconhecer o seu “papel único na liderança da República Islâmica do Irão durante muitos anos”, apelando ao “grande povo iraniano” para “manter a sua unidade, permanecer firme e frustrar os objectivos sinistros dos agressores” .

O Hezbollah prometeu cumprir o seu “dever de confrontar a agressão” . As milícias xiitas iraquianas lançaram dezenas de drones contra “bases inimigas no Iraque e na região” em retaliação .

O Que Fica Deste Momento Histórico

O mártir Aiatolá Ali Khamenei tombou sob as bombas do império a 28 de fevereiro de 2026. Para o Ocidente, foi um “alvo eliminado”. Para o Irão, para o Eixo da Resistência, para milhões de muçulmanos no mundo, foi a prova final de que um homem pode ser morto, mas uma causa não.

O que fica deste momento?

Fica a certeza de que o Irão não é o Iraque. Não é a Líbia. Não é o Afeganistão. Tem instituições profundas, uma burocracia resiliente, uma Guarda Revolucionária que controla 60% da economia e um povo com 5.000 anos de história que já viu invasores demais para se curvar a bombas.

Fica a lição de que o martírio, no imaginário xiita, não é uma derrota – é uma semente. Como Khamenei próprio ensinou sobre outros mártires da resistência: “O martírio não os tirou de cena, apenas removeu a sua presença física. Os seus espíritos permanecem, os seus pensamentos continuam e o seu caminho continuará.”

Fica a denúncia da hipocrisia ocidental. A mesma máquina que financia ONGs para produzir relatórios sobre o hijab (USAID, NED) é a que fornece as bombas que mataram Khamenei. O mesmo feminismo que diz “libertar” as mulheres iranianas é o que as usa como arma de guerra híbrida, esquecendo que em 1936 foi o Xá, aliado do Ocidente, quem proibiu o véu à força.

Fica a complexidade. O Irão é um país onde mulheres sem véu, com lenço e com chador tradicional coexistem nas mesmas ruas. Onde a “polícia da moral” não é uma presença constante, mas um instrumento político mobilizado em momentos de tensão. Onde a lei do hijab pode permanecer nos livros, mas a sociedade já evoluiu por si só – sem precisar de “libertadores” bombistas.

Fica a solidariedade do mundo multipolar. A Rússia condenou. A China apelou à contenção. Cuba, Espanha, Venezuela – todos rejeitaram a acção unilateral. Mas fica também a amarga lição de que, quando os mísseis caem, a capacidade de resposta do Sul Global ainda é limitada.

E fica, acima de tudo, o povo iraniano. Nas eruas de Teerão, Qom, Mashhad. Nas vielas da Caxemira. Nos subúrbios de Beirute. Nas mesquitas do Iraque. Um povo que chora o seu líder, mas não se curva. Um povo que sabe que a história não se escreve com bombas, escreve-se com resistência.

O Irão seguirá. O Eixo da Resistência seguirá. O mundo multipolar seguirá. Porque, como ensinam os mártires, a morte física não apaga o exemplo. E enquanto houver um só iraniano de pé, um só combatente, uma só criança que aprenda a história de Khamenei – ele viverá.

Pelo Irão, por todos os que dizem não.

Khamenei Vive! 🇮🇷

A Geopolítica do Mundo Multipolar

Este ataque não é apenas sobre o Irão. É sobre todos os que dizem “não” ao mundo unipolar. E, ao contrário do que algumas análises apressadas sugerem, Rússia e China não são meros “espectadores impotentes”. O apoio que prestaram ao Irão nos meses e semanas que antecederam o ataque de 28 de fevereiro de 2026 foi substancial, estratégico e, em alguns aspectos, decisivo.

🇷🇺 O Apoio Militar da Rússia: Muito Além de Condolências

Nos meses anteriores ao ataque, Moscovo intensificou significativamente as transferências de armamento para Teerão. Um acordo secreto, revelado pelo Financial Times, prevê o fornecimento de 500 sistemas portáteis de defesa aérea Verba e 2.500 mísseis 9M336, num contrato avaliado em cerca de 591 milhões de dólares, a ser entregue entre 2027 e 2029, embora haja indícios de que parte do material já tenha chegado .

Mas o apoio russo não se ficou por equipamento prometido. Nos últimos dois anos, a Rússia forneceu ao Irão :

  • Caças Su-35: Um contrato para 48 aviões de combate avançadas, com entregas inicialmente previstas para 2026-2028.

  • Aeronaves de treino Yak-130: Pelo menos um esquadrão entregue a partir de 2024.

  • Helicópteros de ataque Mi-28: Até seis unidades entregues em janeiro de 2026.

  • Viaturas blindadas “Spartak”: Dezenas de unidades entregues e utilizadas pelas forças de segurança iranianas.

  • Fuzis de precisão Orsis T-5000M: Utilizados pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).

A 30 de janeiro de 2026, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, Ali Larijani, reuniu-se com Vladimir Putin em Moscovo. Desse encontro resultou a promessa russa de continuar a fornecer assistência militar, com especial ênfase na entrega dos helicópteros Mi-28 . A Rússia também se comprometeu a aumentar o comércio de energia para ajudar o Irão a aliviar a escassez de fundos .

A motivação russa é clara: o Irão é um parceiro produtivo na guerra da Ucrânia, fornecendo drones e mísseis, e um nó vital no Corredor Internacional Norte-Sul (INSTC) , que permite a Moscovo contornar as rotas marítimas controladas pelo Ocidente . A sobrevivência do regime iraniano é do interesse estratégico directo da Rússia.

🇨🇳 O Apoio Tecnológico e Estratégico da China

A China, por seu lado, tem actuado de forma mais discreta, mas igualmente eficaz, nos domínios tecnológico, de inteligência e de navegação.

Sistemas de Radar e Defesa Aérea: Pequim forneceu ao Irão o radar YLC-8B, um sistema de última geração capaz de detectar caças furtivos como o F-35A Lightning II a distâncias superiores a 200 quilómetros . Este radar integra-se na rede de defesa aérea iraniana, fornecendo dados de designação de alvos aos sistemas S-300PMU-2 e HQ-9P .

Navegação por Satélite (BeiDou): Após a guerra de junho de 2025, que expôs vulnerabilidades nos sistemas de guiamento de mísseis e drones iranianos devido a perturbações no GPS, Teerão acelerou a sua transição para o sistema de navegação chinês BeiDou-3 . Esta mudança permite ao Irão uma maior precisão e resiliência contra interferências e falsificações de sinal.

Inteligência por Satélite e Cooperação Cibernética: Empresas chinesas de tecnologia por satélite, como a Mieo Technology, têm fornecido imagens de alta resolução que permitiram ao Irão monitorizar os movimentos das forças norte-americanas na região, incluindo a acumulação de aviões de reabastecimento e sistemas de defesa antiaérea na Base Aérea de Al Udeid, no Catar . Esta informação tem sido crucial para o planeamento defensivo iraniano, permitindo-lhe ajustar o posicionamento dos seus mísseis e evitar a detecção por radar.

Além disso, o quadro de cooperação inclui operações conjuntas de cibersegurança e inteligência, focadas na investigação de ciberataques e na protecção de infraestructuras críticas e redes governamentais. A China também está a apoiar os esforços do Irão para substituir software e hardware ocidentais por alternativas chinesas.

Os Limites do Apoio: Realismo Estratégico

É verdade que, apesar de todo este apoio, a capacidade de resposta do mundo multipolar tem limites claros. Um relatório do European Times sublinha que o apoio de Pequim e Moscovo permanece estrategicamente ambíguo: concebido para desafiar Washington, mas cuidadosamente contido para evitar uma escalada perigosa .

“A distância é importante. A Rússia e a China estão a milhares de quilómetros do Irão. Ao contrário dos EUA, que mantêm extensas bases e activos navais em todo o Médio Oriente, nem Moscovo nem Pequim têm a infraestructura logística para projectar poder militar sustentado no Golfo Pérsico” .

O mesmo relatório conclui que a relação de ambos com o Irão é “transacional, não sacrificial”. Venderão armas, emitirão condenações e explorarão a crise para pressionar Washington, mas quando os mísseis norte-americanos caem, o Irão não pode esperar um resgate militar directo.

Conclusão da Análise Geopolítica

Isto expõe uma verdade complexa: quando os mísseis caem, a capacidade de resposta militar directa do mundo multipolar ainda é limitada. No entanto, a ideia de que a Rússia e a China são “espectadores impotentes” é profundamente errada. Através de um apoio sistemático, que vai desde armamento sofisticado e sistemas de radar de ponta até inteligência por satélite e alternativas de navegação, ambos os países têm contribuído decisivamente para a capacidade de resistência do Irão.

O império pode ter eliminado um líder, mas não pode eliminar a teia de alianças e o apoio tecnológico que sustentam a defesa de um povo. Como escreve o analista nigeriano:

“Quando os Estados Unidos parecem inseparáveis das decisões militares israelitas, herdam cada queixa que essas decisões produzem. Numa região já saturada de desconfiança, essa herança estreita o espaço diplomático e radicaliza o sentimento. A América está a criar adversários a um ritmo que deveria alarmar até os seus aliados mais próximos.”

 Khamenei Vive

Khamenei tombou sob bombas. Mas, como Fidel, como Che, como todos os que tombam na luta contra o império, não morreu – multiplicou-se.

No Líbano, no Iraque, no Iémen, em Caxemira, em cada rua de Teerão onde ontem e hoje se chorou a sua morte, há uma criança que aprenderá a sua história, um combatente que pegará na bandeira, um povo que resistirá.

O Ocidente nunca entenderá o martírio. Nunca entenderá que um povo com 5.000 anos de história não se dobra por mísseis. Nunca entenderá que a cultura de um povo é a sua cultura, e ponto – podemos discordar, mas temos de respeitar.

Conclusão

O povo iraniano tem 5.000 anos de história. Viu impérios surgirem e desmoronarem. Viu invasões mongóis, árabes, turcas. Viu o Xá, fantoche do Ocidente, proibir o véu à força. E viu a Revolução Islâmica devolver-lhe a dignidade de escolher o seu próprio destino.*

Hoje, choram um mártir. Mas não se curvam. Nas ruas de Teerão, Qom, Mashhad, nas vielas da Caxemira, nos subúrbios de Beirute, um grito sobe: Khamenei não morreu. Khamenei multiplicou-se.

Porque um povo que resiste a 40 anos de sanções, que viu o Iraque e a Líbia serem destruídos e aprendeu a lição, que tem nas mãos a arte milenar de sobreviver – esse povo não se entrega a bombas.

O Irão é a pedra no sapato do império. É a prova viva de que se pode dizer não. É a memória de que a soberania não se negocia.

Que o vento da História sopre sempre a favor dos que resistem. Que o sangue dos mártires regue a árvore da liberdade. Que o Irão viva – e vença.

Patria o Muerte, camaradas. Sempre.
Pelo Irão, por Cuba, por todos os que dizem não.
Khamenei Vive!
🇮🇷🇨🇺🔥 “

Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio em Cuba, e que agora testemunha o martírio de Khamenei sob as bombas do mesmo império. Pela soberania dos povos. Pelo fim do cerco, onde quer que ele exista. Pelos milhões que, em silêncio ou nas ruas, já decidiram de que lado estão.

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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