Artigos de OpiniãoSantiago Mondéjar Flores

Ondas de crise: À deriva num Mundo destruído

O capital, neste quadro mais amplo, é apenas um elemento entre muitos. A crítica de Marx, no entanto, conseguiu elevar o capital a uma posição de centralidade conceptual, apresentando-o como a característica definidora da ordem económica a que ele se opunha (Marx, 1867).

O princípio transcendental do progresso é o panteísmo, no sentido de que ele se recusa a permitir que alguém se sinta à vontade no seu devido lugar, segundo George Santayana (Santayana, 1923). Em vez disso, ele impele cada pessoa a buscar a verdadeira liberdade e felicidade na incerteza e no desenraizamento, embarcando numa jornada forçada rumo a um destino inóspito, semelhante à peregrinação dos emigrantes. Nesta visão de mundo, o cosmos surgiu de uma nebulosa e retornará a outra. Entretanto, a felicidade não consiste em permanecer, mesmo que fugazmente, como uma estrela fixa, radiante e pura; em vez disso, ela reside em fluir e dissolver-se em harmonia com o destino supremo de cada indivíduo.

Como Zygmunt Bauman também defende, a ideia de progresso está, portanto, entrelaçada com a noção de evolução universal e surge da crença na mudança contínua como uma forma de libertação: uma compulsão para a mutação perene, o fluxo perpéctuo e a diversidade ontológica (Bauman, 2000). Estagnar é incorrer numa espécie de aniquilação existencial. O paradoxo, porém, é que esse fluxo, como um fluxo ininterrupto de acção, torna-se uma força paralisante quando não é controlado. Ortega y Gasset salienta que, ao nascer, o ser humano encontra-se imerso na teia dominante de crenças da sua época, absorvendo a sua própria essência (Ortega y Gasset, 1930). No entanto, o anseio pelo conhecimento leva a examinar essas crenças e transformá-las em ideias, num processo dialéctico que se revela como a realidade fundamental da existência humana.

Segundo Ortega, em qualquer momento histórico, três gerações distintas convergem, cada uma incorporando um ciclo vital diferente: a geração emergente, a geração em plena maturidade e a geração em declínio (Ortega y Gasset, 1930). Embora as crenças e ideias dessas gerações coexistam no mesmo presente, elas são divergentes, o que implica que os indivíduos que vivem na mesma época podem ser contemporâneos, mas não coevos, pois pertencem a diferentes estractos geracionais. Essa coexistência geracional constitui a força motriz por trás do avanço — ou recuo — da história. Assim, em certos períodos históricos, as sociedades passam por um enfraquecimento ou abandono dos valores, instituições e modos de vida anteriores.

São momentos de crise em que as estruturas sociais, políticas e culturais tradicionais se dissolvem numa corrente de mudança, sujeitando o indivíduo a um estado de confusão e desorientação em que a única certeza reside na ausência de convicção. A profundidade dessas crises pode ser plenamente compreendida através do recurso ao conceito de habitus de Bourdieu, que nos permite entender como as estruturas sociais influenciam o comportamento individual sem o determinar totalmente (Bourdieu, 1977). Habitus é o conjunto de disposições internalizadas que reflectem as estruturas sociais externas e moldam a forma como percebemos e agimos no mundo. Ele predispõe os indivíduos a se comportarem de maneiras específicas, de acordo com as estruturas que os envolvem.

O habitus é simultaneamente producto, productor e reproductor de estruturas sociais, gerando práticas que se alinham com as condições sociais que o produziram — reproduzindo assim essas mesmas estruturas com maior ou menor intensidade, dependendo do grau em que as crenças foram dissolvidas no fluxo da mudança (Bourdieu, 1977). Como sugeriu Ortega, diante da incerteza sistémica, respondemos ou voltando a um passado mítico em busca de um significado fundamental ou, como alertam Santayana e Bauman, regressando à barbárie — rendendo-nos à acção frenética como forma de fugir à insegurança do presente (Santayana, 1923; Bauman, 2000). No entanto, ambas as reacções levam à atrofia social. Pois, na nossa obsessão com os fracassos do presente — em vez de nos esforçarmos para criar um futuro melhor — acabamos por transformar o presente na imagem negativa de um passado que pertence a um futuro positivo que somos incapazes de imaginar.

Um sintoma claro da dissolução social no fluxo da mudança é a fragmentação cultural nascida de objectivações como a interseccionalidade, que por sua vez surge de abstracções como perspectivas individuais e discursos intersubjetivos. Na sua formulação mais básica, a interseccionalidade propõe uma luta compartimentada contra a exploração, liderada (como protagonistas, do grego prôtos, primeiro, e agōnistḗs, combatente) por aqueles que sofrem diretamente uma forma específica de opressão: as mulheres devem liderar a luta contra o heteropatriarcado, as minorias étnicas a luta contra o racismo e assim por diante (Crenshaw, 1989).

No discurso político, isso é semelhante a dividir um texto em fragmentos de significado e codificar cada um deles como uma letra separada — como num jogo de palavras. Longe de reforçar os laços sociais, o intersubjetivismo constrói uma hierarquia de privilégios que é inerentemente conformista. Ele estabelece uma rivalidade de todos contra todos, um agonismo de trabalhador contra trabalhador, de oprimido contra oprimido — conferindo um valor essencial e imutável à identidade, da qual surgem falsas consciências e que, em última análise, resulta na anulação de qualquer princípio de acção unificada na esfera pública. Isso porque a interseccionalidade e os discursos intersubjectivos abrigam uma contradição fundamental: a dificuldade inerente de construir uma “cadeia equivalencial” — ou seja, de desarticular as instituições existentes enquanto se promulgam leis gerais e uniformes capazes de conciliar o particular e o heterogéneo (Laclau & Mouffe, 1985).

Isso é necessário para evitar que a subjectividade radical ossifique a desigualdade social. Os dois conceitos que melhor sintetizam essa contradição são isotimia — a exigência de ser tratado como igual — e megalotimia — o desejo de ser reconhecido como desigual. Na verdade, esse dilema serve como um estudo de caso prático da teoria dos campos de Bourdieu, que postula que a sociedade está organizada em espaços estructurados onde os agentes competem por diferentes formas de capital — económico, cultural, social ou simbólico (Bourdieu, 1984). Esses campos contêm posições dominantes e subordinadas, e a acumulação de capital determina a posição de classe de cada um. Longe de serem vítimas do sistema, aqueles que acumulam capital cultural e social por meio da interseccionalidade e da intersubjectividade são, na verdade, arquitectos de um sistema que, seguindo Althusser, entende a dinâmica de classe como um fenómeno teórico emergente da própria estructura da sociedade (Althusser, 1971).

Isso contrasta com E. P. Thompson, que enfatizou a práxis, estimulada pela consciência de classe, como o verdadeiro motor da transformação histórica (Thompson, 1963). A este respeito, vale a pena recordar o argumento apaixonado de Thompson de que o movimento ludita do século XIX não era composto apenas por vítimas passivas do progresso tecnológico e das forças económicas, mas por agentes conscientes que respondiam às convulsões da revolução industrial (Thompson, 1963). Eles resistiram à introducção de máquinas não por motivos reacionários, mas porque compreenderam que esses novos sistemas eram a reificação de estruturas socioprodutivas emergentes que aboliam a dignidade humana, transformando-os em extensões das máquinas — em vez de máquinas a serviço dos fins humanos. A revolta ludita marcou um ponto de viragem na confluência das classes dominantes e do aparelho estatal, cuja aliança foi cimentada pelo uso do monopólio da coerção estatal a serviço dos detentores de capital, salvaguardando assim as suas prerrogativas e lucros excessivos.

Este momento histórico delineou uma relação sem precedentes entre o poder estatal e as elites económicas, incorporando um paradigma emergente no qual os interesses dos capitalistas — proprietários da tecnologia — passaram a determinar as decisões e acções do Estado. É precisamente aqui que se torna evidente uma das grandes confusões do discurso contemporâneo sobre o sistema económico ocidental: o próprio termo capitalismo, tão prevalente no debate político e na imaginação popular, é ideologicamente carregado. Não foi cunhado pelos liberais clássicos ou pelos empresários industriais do século XIX, mas sim pelos seus críticos. O termo capitalista foi notavelmente popularizado por Karl Marx nas suas obras seminais (Marx, 1867). Antes da intervenção conceptual de Marx, aqueles que se dedicavam à actividade económica não se referiam ao seu sistema como “capitalismo”, embora estivessem plenamente conscientes dos seus princípios económicos operacionais.

O seu modo de actividade económica não era definido fundamentalmente pela acumulação de capital. Em vez disso, o capital, em sentido estricto, actuava como um meio instrumental para facilitar a produção — como era o caso de muitos dos primeiros industriais, que não eram motivados apenas pelo lucro, mas também por um compromisso com a inovação e o avanço social. Nesta perspectiva, a força desse modelo económico não deriva do “capitalismo” em si, mas do seu carácter dinâmico e productivo. Um termo mais preciso para tal sistema poderia ser “empresa productiva”, que abrange não apenas o capital, mas também a mão de obra, os recursos materiais, a capacidade de gestão, o conhecimento técnico e uma ampla gama de outros factores essenciais à vitalidade económica.

O capital, neste quadro mais amplo, é apenas um elemento entre muitos. A crítica de Marx, no entanto, conseguiu elevar o capital a uma posição de centralidade conceptual, apresentando-o como a característica definidora da ordem económica a que se opunha (Marx, 1867). Esta reformulação conceptual provocou uma resposta defensiva totalmente baseada em rendimentos financeiros especulativos e outra baseada no trabalho, no empreendedorismo e na criação de valor social real. Dois séculos depois, agora totalmente imersos na apoteose da digitalização total, as dimensões antropológicas do determinismo tecnológico continuam, como então, a ser a questão central. Pois a verdadeira ameaça representada pela Inteligência Artificial Generativa não reside no seu potencial para adquirir consciência ou superar a inteligência humana. O verdadeiro perigo reside no nosso aprisionamento numa jaula digital transparente: uma estructura social tecnolizada, ostensivamente neutra, na qual o valor é reduzido exclusivamente à eficiência e à productividade (Zuboff, 2019). Dentro desta jaula invisível, todas as dimensões da vida humana são mercantilizadas, reduzidas a uma única dimensão ética e socialmente subordinada à maximização do lucro económico. Os seres humanos são cada vez mais concebidos como capital humano e o nosso trabalho como uma mercadoria — reduzido a mais um factor productivo, forçado a competir em termos de custo-eficiência com as máquinas.

Como resultado, os salários reflectem cada vez menos o valor intrínseco do trabalho como recompensa material pelo esforço humano e mais um gesto simbólico que deixa a mais-valia sem compensação. O salário torna-se trabalho objectivado que, embora compense nominalmente o esforço humano, idolatra o valor do trabalho como dinheiro — transformando assim o salário num símbolo artificial que ofusca a verdadeira fonte do valor social e o peso ético do trabalho humano.

Além disso, o valor do trabalho objectivado é cada vez mais simbólico em si mesmo: funciona não apenas como meio de troca, mas também como um sinal desprovido de valor intrínseco que aponta para o valor de outras coisas. Esse valor é construído e sustentado por estruturas socioeconómicas, de modo que o dinheiro se torna um simulacro — uma representação artificial de valor progressivamente separada da realidade tangível do trabalho humano e da producção material (Baudrillard, 1994). No entanto, levados pelo frenesi das utopias líquidas, continuamos inconscientes da nossa conformidade dócil com o chamado Iluminismo Negro, termo cunhado por Nick Land para designar o conjunto de ideias que repudiam a soberania popular, manifestam ceticismo em relação à equidade política e defendem formas alternativas de governo tecnocrático pseudopolítico (Land, 2013).

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Autor:

Santiago Mondéjar

Santiago Mondéjar (Sant Andreu de Llavaneres, 1963) é um consultor internacional com mais de trinta anos de experiência no sector externo, tendo residido durante dezassete anos no Reino Unido e trabalhado nos Estados Unidos e no Peru, que concilia o seu trabalho profissional com a actividade de escritor (La historia silenciada, Historiadores de Cataluña, 2018; A golpes con el Estado, ED Libros, 2019; El libro negro del nacionalismo, Deusto, 2021; e Los catalanes sí tenemos Rey, Hildy, 2022) e com a publicação de numerosos artigos de opinião em meios como Crónica Global, ABC, Economía Digital, mEDium, Atalayar e o Instituto Español de Estudios Estratégicos, além de ser conferencista.

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