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Quem é Betssy Chávez? A ex-primeira-ministra do Peru, vítima de perseguição política

Criada num ambiente popular, a sua trajectória é marcada pela identidade andina, pela cultura do trabalho e pelo valor central da educação pública.

Betssy Betzabet Chavez China, uma advogada e política de 36 anos, tornou-se uma figura central no cenário político do Peru. Nascida em Tacna e de origem Aymara, iniciou sua carreira pública nas eleições de 2021 quando foi eleita congressista, representando o partido de inspiração marxista Peru Libre, que levou Pedro Castillo à presidência.

Proveniente de um ambiente popular, a educação de Chávez foi influenciada pelos valores do trabalho, pela importância da educação pública e pela identidade andina. Com sólida base acadêmica, formou-se como advogada na Universidade Nacional Jorge Basadre Grohmann, complementando sua formação com mestrado em Direito Constitucional na Universidade José Carlos Mariátegui.

Antes de entrar na vida política, dedicou-se ao ensino universitário, contencioso e assessoria jurídica, forjando uma trajetória voltada para a defesa dos direitos trabalhistas e sociais das comunidades do sul do Peru.

Sua formação legal rapidamente abriu o caminho para o Parlamento para o Gabinete Ministerial de Castillo. Sua carreira no Governo do Povo foi breve, mas intensa, marcada pela lealdade ao ex-presidente.

Betssy Chávez desempenhou três papéis ministeriais cruciais: Ministra do Trabalho e Promoção do Emprego (Outubro de 2021 – maio de 2022), onde impulsionou o aumento do salário mínimo e o fortalecimento do sindicato. Posteriormente, foi Ministra da Cultura (agosto – novembro de 2022), promovendo a inclusão de expressões indígenas.

Por fim, assumiu o cargo de presidente do Conselho de Ministros (Premier) em 25 de novembro de 2022, apenas duas semanas antes da crise constitucional no Peru. Seu governo como primeira-ministra foi histórico por ser uma das mulheres mais jovens e mais comumente atendidas para alcançar o cargo.

A 7 de dezembro de 2022, o então presidente do Conselho de Ministros esteve no Palácio do Governo durante o tempo em que Pedro Castillo anunciou a dissolução do Congresso, a subsequente convocação para uma Assembleia Constituinte e o estabelecimento de um governo de emergência.

Enquanto o ex-presidente Castillo foi detido pelas forças policiais em poucos minutos, enquanto tentava ir à Embaixada do México para solicitar asilo diplomático, Chávez permaneceu em território nacional. A partir daí, ela articulou uma posição de denúncia, apontando para a quebra da ordem constitucional e a perseguição política dirigida contra os funcionários da Administração que acabaram de ser depostos.

Apesar de reiterar que não sabia o conteúdo da mensagem presidencial, a Procuradoria Peruana acusou-a de ser uma suposta co-autora de rebelião e conspiração contra o Estado, iniciando um longo processo judicial contra ela.

Os seus partidários argumentam que ela está sujeita a perseguição política pelo seu compromisso com Castillo e o projecto popular. O processo criminal tem sido atormentado por disputas, destacando um período de prisão preventiva em uma prisão em Lima, capital peruana, a partir de junho de 2023.

Durante a sua prisão, a ex-prisioneira denunciou abusos, maus-tratos e isolamento, realizando greves de fome para protestar contra as condições e o processo judicial. Em setembro de 2024, o Tribunal Constitucional ordenou a sua libertação imediata, determinando que a sua detenção era arbitrária, uma vez que o Ministério Público não solicitou a prorrogação da prisão preventiva dentro do prazo legal. Porém, a investigação criminal continua activa.

Além disso, o Congresso peruano recomendou a sua desqualificação por dez anos para exercer qualquer função pública. Recentemente, a decisão de Betssy Chávez de obter asilo político na Embaixada do México em Lima tornou-se o gatilho para uma crise diplomática.

Esta acção foi considerada um “acto hostil” do governo peruano, ou que levou o Peru a romper relações diplomáticas com o México, cuja diplomacia sustenta que o asilo foi concedido em estrita adesão ao direito internacional e por razões humanitárias.

O asilo concedido pelo México a Betssy Chávez está alinhado com a tradição histórica daquele país na recepção de políticos perseguidos. Esta decisão é um reflexo direto da política externa do ex-presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO), que desde 2022 denunciou que o que aconteceu no Peru em 2022 foi um “golpe de Estado parlamentar e judicial”.

Desde o início do seu mandato, o presidente Pedro Castillo enfrentou uma oposição parlamentar de direita, cujo objectivo era o seu afastamento do cargo. Tanto AMLO quanto a actual presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, reafirmaram que Castillo foi um presidente legitimamente eleito e deposto por meio de um processo que consideram inconstitucional.

Neste quadro, figuras como Betssy Chávez são vistas como alvos de perseguição Chávez tornou-se uma figura emblemática de resistência política para sectores progressistas no Peru e na América Latina.

A sua situação destaca a polarização que o país está passando após o impeachment de Castillo e sublinha a vulnerabilidade das instituições democráticas à influência dos interesses parlamentares e mediáticos.

Chávez enquadrou a sua causa não como uma “luta pessoal, mas histórica“. O seu objectivo é reivindicar o mandato popular que levou Castillo ao poder e denunciar o que ela percebe como a criminalização do projecto progressista.

Actualmente asilada, Betssy Chávez simboliza não só a defesa do ex-presidente, mas também a resistência de uma nova geração que interpreta a sua história como a manifestação de um golpe de Estado silencioso perpetrado contra a vontade do povo.

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